karate, esporte ou arte marcial, a verdade sobre bushido parte I

Karate é esporte ou arte marcial? I

A verdade sobre Bushido

Quando se fala sobre karatê-do, é comum ouvir sobre a diferença do karate como esporte e do karate como arte marcial. Resumindo todo este assunto, creio que é importante que cada praticante tenha noção destas diferenças. Entretanto, gostaria de abrir um espaço para uma reflexão. Muitas vezes, há karatecas que dizem que buscam o karate-arte, o karate-budô, o karate-marcial e o karate-bushido. Que se busca o caminho do guerreiro, o caminho do samurai. Isto para diferenciar do karate esportivo. Pessoalmente concordo com muitos pontos de vistas assim, apenas queria atentar para o fato de não ser aconselhável utilizar facilmente e levianamente termos como bushido ou samurai.

Em uma das conversas com o hoje falecido Tada Sensei, após o treino no Hombu dojo de Himeji, eu, devido a minha imaturidade e, talvez um pouco levado pelo ímpeto encorajado pelo sake, comecei a dar minha opinião sobre como o karate deveria seguir o bushido. Fui severamente repreendido por Tada Sensei. Ele me falou para não usar levianamente o termo bushido, já que eu não tinha conhecimento profundo o suficiente para isto. Para começar, se ele, Seigo Tada, tivesse seguido o bushido, não estaria vivo e, consequentemente, não teria a Seigokan e, eu nem estaria tendo aquela conversa no escritório do Hombu Dojo. Que se todos os karatekas nascidos antes da Segunda Grande Guerra tivessem seguido o Bushido, o karatê não teria se divulgado pelo mundo, pois teriam que cometer seppuku. Que o karatê deve buscar novos valores com base nos antigos. E que se eu quisesse usar um termo para diferenciar o karate esportivo do karate marcial, seria aconselhável usar o termo budo.

Afinal, o que seria bushido? (continua)

Antes de falarmos sobre Bushido, vamos explicar sobre a palavra "samurai". Samurai, vem do ideograma 侍 cuja origem era o verbo “saburau” que significa acompanhar. Isto é, inicialmente o termo se referia aos guerreiros que acompanhavam os nobres, protegendo-os. E conforme a classe de guerreiros foi se desenvolvendo para a proteção dos feudos e de suas riquezas, gradativamente se foi organizando a base para a criação da casta dos bushis. No início, o que era esperado dos samurais era que fossem corajosos e extremamente fortes.

A formação da classe guerreira, bushidan, de maneira organizada, com o sistema hierárquico formado como força política, ocorreu em 1192 no perído Kamakura, com a tomada do poder pelo Clã Minamoto, após vencerem o Clã Taira. Desde esta época, conforme os feudos pertenciam a classe de nobres guerreiros, em cada feudo, se organizava um sistema de leis e regras para o comportamento dos guerreiros.

Entretanto a consolidação do poder político nas mãos de samurais só ocorreu no shogunato de Tokugawa. Isto ocorreu após1600, na batalha de Sekigahara, momento em que houve a unificação do poder por Ieyasu Tokugawa, iniciando o período Edo. E foi justamente neste período que o bushido como código de honra se consolidou. Os vários textos, como o Hagakure, que ditam como um bushi, um samurai deve se portar, foram publicados justamente nesta época.

Agora, o que é o bushido?

武士道: Bushido, literalmente significa caminho (no sentido espiritual) do bushi, guerreiro.Mas por bushido, se entende que são as regras morais que regem a vida de um samurai. Podemos dar vários detalhes sobre bushido, mas o principal e mais importante neste momento é explicar que como os japoneses, ao longo de séculos de guerras, começaram a desenvolver um senso estético pela morte, isto é, ver a beleza no modo de morrer, por bushido se resume a idéia de encontrar o caminho correto para a morte.

Quando alguém menciona que busca ser um samurai no karatê, temos alguns problemas. Uma é que samurai seria a denominação dada a um guerreiro que herdava isto por laços de sangue. Se não tiver ancestrais samurais, não poderia ser considerado samurai. Depois, karate em sua origem, pode pertencer a uma classe de nobres, mas culturalmente eram diferentes dos japoneses. Isto é, Karate tem sua origem em Okinawa.

Juntando com esta questão de samurai e de bushido, quando alguem fala que quer seguir o karate bushido... significa que não deveria estar vivo agora. Pois quem segue o bushido, ao descobrir que o Japão perdeu na Segunda Grande Guerra, e se continuasse vivo, deveria cometer o seppuku, isto é, cortar a sua própria barriga com uma espada.

Na verdade, achei importante tocar neste assunto, pois sinto que no ocidente se mistifica muito as artes marciais japonesas. Entretanto, se as artes marciais japonesas sobreviveram até hoje, se deve ao pensamento e ao grande desejo de muitos mestres que sobreviveram à Segunda Guerra, de transformar um budo em um esporte, para que se forme o caráter de jovens para que nunca mais ocorra uma guerra como a que aconteceu no Japão.






Dojo-kun da Seigokan

 

Dojo-kun

Dojo-kun são as diretrizes educacionais de um dojo, por extensão, são as diretrizes espirituais do próprio dojo.

Por isto, o dojo-kun deve ser claro para se entender facilmente as diretrizes educacionais de um dojo. Por mais que o dojo-kun seja bonito e utilize palavras difíceis, se este não for compreendido pelo praticante, não terá finalidade. O importante é que o dojo kun se torne nos mandamentos e nos objetivos dos praticantes da arte marcial. O Dojo-kun visa à formação do caráter, indo muito além do simples desenvolvimento físico ou desportivo. Em outras palavras, aprender karatê-do seria aprender o dojo-kun.

No caso do Karatê-do é comum encontrarmos o dojo-kun que foi elaborado por Ginchin Funakoshi, o pai do karatê moderno.

Mas de acordo com o estilo, a escola ou associação encontramos outros dojo-kun. Ainda pode haver pequenas mudanças de um dojo para outro. Apresento a seguir, os dojo-kun dos quatro maiores estilos no Japão, sendo que em relação ao Goju-ryu, apresentarei o dojo-kun original escrito por Seigo Tada, fundador da Seigokan.

Dojo-kun da Seigokan, estilo Goju-ryu

(em japonês)

道場訓 

空手道は自己の人格完成をめざしての精神道であることを片時も忘れず真心蘢めて練習養丹の効を挙ぐるよう努むること。 

絶えず礼儀作法の真の意味と方法を辨へて、苟も単なる体力養成或いは趣味程度に堕しない様努めること。 

常に言葉・動作・挙措・着装に注意して、特に暴慢・悔礼・乱恬に流れないよう心掛けること。

始めには全員揃って師範を待ち、練習始まれば最後まで共に相励むの雰囲気崩さず、終りには師範に対する感謝の心と、お互いで道士の謝意の気持ちをもって終わること。 

誠実・謙虚・不屈

初代 正剛館館長 多田正剛 遺稿原文のまま

Dojo-kun

Karate-do wa jikono jinkakukannsei wo mezashiteno seishindo de aru koto wo katatoki mo wasurezu magokoro inutademete, renshuukaitan no kou wo kyoguruyou tsutomurukoto.

Taezu reigisahou no makoto no imi to houhou wo benhete, kou mo tannaru tairyoukuyousei aruiha shumiteido ni dashinaiyou tsutomerukoto.

Tsune ni kotoba, dousa, kyouso, tyakusou ni chuí shite, tokuni bouman, kuyarei (gurei?), ranten ni nagarenaiyou kokorogakerukoto.

Hajimeni wa zen-in sorotte shihan wo mati, renshu hajimareba saigo made tomo ni aihagemuno fun iki kuzusazu, owarini wa shihan ni taisuru kansha no kokoro to, otagai de doushi no shai no kimochi wo motte owarukoto.

Seijitsu, kenkyo, fukutsu

Traduzido

Esforçar-se para conseguir os resultados do treinamento mantendo seu coração puro sem nunca esquecer que o karate-do é um caminho espiritual que busca o aperfeiçoamento do seu próprio caráter.

Pensar continuamente sobre o verdadeiro significado e a forma dos procedimentos de etiqueta e esforçar-se para que a prática não caia apenas para o objetivo de exercício físico ou para o nível de um simples passatempo.

Atentar continuamente para suas palavras, ações, atitudes e vestes e procurar não se deixar levar pela vaidade, desrespeito e descontrole.

Primeiro, todos devem se alinhar esperando pelo Shihan, ao se iniciar o treino não se deve quebrar o ambiente de incentivo mútuo até o final, e finalizar o treino com o espírito de agradecimento para com o mestre e para com os companheiros.

Honestidade, Humildade e Perseverança

O texto em Japonês é conforme o original escrito pelo kancho da Seigokan, Seigo Tada.

Agora, como opção mais simplificada de Dojo-kun da Seigokan, poderíamos ter:

Karate-do o osameru monowa:

Hitotsu, Seijitsu de aru koto,

Hitotsu, Kenkyo de aru koto,

Hitotsu, Fukutsu de aru koto.

Que traduzido seria:

Quem pratica o karate-do

Deve ser verdadeiro

Deve ser humilde

Deve ser perseverante



Sobre a língua Japonesa

Faz mais de vinte anos, em um exame de faixa de uma federação, aconteceu um fato que me chamou a atenção. Um rapaz que havia treinado com um mestre japonês por muito tempo, veio fazer o exame para shodan. Seu mestre já havia falecido e ele veio treinando sozinho. No exame, ele executou um kata. Acho que era o Tekki shodan ou Naifanchi-shodan. Um dos mestres da banca examinadora (hoje já falecido) reclamou que o kata executado estava errado.
O rapaz retrucou, falando que o kata dele não estava errado. Que poderia estar diferente do padrão, mas errado não, pois era assim que ele havia aprendido de seu mestre. Um dos mestres que estava na banca, concordou plenamente com a afirmação do jovem.
Este fato narrado é para ilustrar um aspecto que existe tanto no karatê-do como também na educação como um todo. Há uma tendência muito forte de tentar classificar qualquer coisa como certo ou errado. Entretanto, as pessoas se esquecem de que a classificação de certo ou errado vai sempre depender do contexto.
“Enquanto o viajante espera por bom tempo, o agricultor espera por chuva.” (provérbio chinês)
Levando em consideração este aspecto do certo ou errado, vamos agora analisar sobre os nomes em japonês de golpes no karatê. Muitas vezes, vi discussões entre praticantes da arte que tentavam definir o nome certo de dada técnica.
Claro, existe uma norma da própria língua japonesa que acho que deve ser respeitada. Por exemplo, a palavra tsuki (soco), que acaba mudando com a combinação de outras palavras, como em Tsuki-waza (técnicas de soco) e em guiaku-zuki (soco – contrário, soco desferido pelo lado reverso do corpo). É que existe uma regra na língua japonesa em que a sílaba “tsu” muda para “zu” quando é colocada atrás de uma outra palavra. Mais exemplos, tsuki-gaeshi, jun-zuki, oi-zuki, morote-zuki, yama-zuki, seiken-zuki. Pode ser ver o mesmo com a palavra keri (chute), keri-waza, tobi-gueri, mae-gueri, yoko-gueri, etc.
Agora tomando esta última palavra como exemplo, o yoko-gueri, é uma palavra formada por dois ideogramas 横yoko, que significa lado, e蹴り, keri, que significa chutar. Talvez a maioria dos karatekas conheçam yoko-geri como o chute desferido para o lado, com a parte sokuto, a chamada faca do pé. Entretanto, este não é o único tipo de chute que recebe este nome. O chute que é desferido com o corpo de lado, mas que é mais parecido com o mae-gueri, também recebe este nome. No estilo Wado-ryu ou em Shorin-ryu, em alguns katas podemos ver este yoko-gueri.
Em Goju-ryu também, mais especificamente nos dojos mais antigos da Seigokan, a palavra yoko-gueri indica um chute que é desferido nos flancos do adversário. Seria um meio termo entre o mae-gueri e o bem conhecido mawashi-gueri. Ora, pode haver uma confusão em termos de padronização de nomes para o karatê, mas creio que é importante entender algo que é mantido por tradição também. Historicamente, na fase inicial do Karate no Japão, não existia o que hoje conhecemos como mawashi-gueri. Este chute foi desenvolvido pelos universitários japoneses, como uma variação do mae-gueri. Para atestar este fato, basta ver que nos katas não existe nenhum mawashi-gueri.

Resumindo, no caso do yoko-gueri, o ideograma yoko, indica ora a direção lateral de quem chuta, ora a posição do corpo no momento do chute, ora o local do oponente em que se direciona este chute.
Agora, vamos levar em consideração o nome dado a uma defesa comum a vários estilos e escolas. Em detalhes não seria a mesma defesa, mas em essência é uma defesa parecida. A defesa que é feita à frente do peito, com o braço dobrado, em que a parte que entra em contato seria o lado do osso radial recebe o nome de chudan-uke, yoko-uke, soto-uke, uchi-uke e o shomen-no-uke. Já vi situações em que um praticante de uma escola critica o nome desta defesa em outra escola, falando o que é certo ou errado. Uma discussão que já ouvi algumas vezes foi em relação ao termo soto-uke e uchi-uke. Soto-uke utiliza os kanjis 外que significa fora e受け que significa defesa. E o uchi-uke pode ser escrito com内 que significa dentro e受け que significa defesa. Um problema é que só com estes dois kanjis, soto 外e uchi内, não definem se é defesa para fora ou defesa de fora, ou defesa para dentro ou defesa de dentro. Isto é, não existe só nos kanjis a definição se a defesa inicia ou termina em tal posição. Fora este problema, existe o problema das palavras homófonas, com a mesma pronúncia, mas que usam kanjis diferentes. Por exemplo, o uchi-uke que utiliza o kanji打ちque significa bater e受け, defesa, é utilizada para a defesa em que, ao mesmo tempo em que se defende, se busca percutir o braço, ou então em que o movimento pode ser utilizado diretamente como ataque. Logo para muitas situações, o praticante que não domina o japonês deve tomar cuidado com esta particularidade dos kanjis terem a mesma pronúncia e significados diferentes.
Mas ao considerar o aspecto marcial nos primórdios do Karatê, não havia uma grande necessidade de determinar o nome, já que um movimento poderia ser utilizado em várias aplicações. E os nomes passaram a ser definidos quando o Karatê como desporto, precisava de uma padronização, justamente no momento que passou de Okinawa para o continente japonês. Ora em Okinawa se fala um dialeto que é bem diferente do resto dos dialetos do continente japonês, e no momento que o karatê foi ensinado aos não-okinawenses houve naturalmente uma dificuldade de padronizar e transmitir os termos escolhidos por cada mestre. Houve um grande esforço dos primeiros mestres em fazer o karatê-do se difundir pelo mundo, mas não foi possível padronizar totalmente os termos devido à importância que cada um dava para algum aspecto da técnica.
Concluindo, hoje no Japão, a Zen Nihon Karate Renmei ou a All Japan Karate Federation (JKF) busca uma certa padronização dos termos. Entretanto, a importância desta padronização, na minha opinião pessoal, restringe-se a aspectos didáticos, pois apenas saber o nome mais padronizado não permitiria que alguém possa executar com mais eficiência as técnicas nomeadas. Isto é, a forma não deve se tornar mais importante que o conteúdo.